quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Aids no Brasil hoje: o que nos tira o sono? Por RANULFO CARDOSO JUNIOR


Ranulfo Cardoso Jr.
O Ministério da Saúde escolheu o Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, para o lançamento da Campanha de Prevenção de DST/AIDS 2013. Uma turma jovem de diversos morros cariocas foi mobilizada pelo Coletivo Galera.com para a criação do material de divulgação do lançamento, na última quinta feira, 31 de janeiro. O tema escolhido: “A Vida é melhor sem Aids. Proteja-se. Use sempre a camisinha” . É a primeira vez que o Ministério escolhe uma comunidade para fazer este tipo de solenidade de lançamento de uma campanha nacional. 

Em dezembro último, o otimismo em demasia em torno da divulgação do relatório da Unaids que apontaria para “o fim da epidemia” preocupou pesquisadores e ativistas os quais alertam que há muitos desafios para esta década, a quarta década da epidemia pois, o próprio relatório o programa da ONU trazia a afirmação que cerca de metade das 34 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo não conhecem seu estado sorológico – ou seja, não sabem que têm o vírus; além disso, das pessoas elegíveis para o tratamento, perto de 7 milhões de pessoas não têm acesso à terapia antirretroviral. Falar que o fim da Aids está perto é uma falácia. Se tivéssemos uma vacina hoje (e não temos), não teríamos como distribuir mundialmente, e não sabemos quantos anos ou décadas serão necessários para conseguir distribuí-la para os que precisam. Mobilização popular, parceria entre ativistas, pesquisadores, gestores e profissionais da saúde, além de vontade política e investimento econômico continuam essenciais. Grupos mais vulneráveis não estão sendo atendidos com a prioridade que necessitam, as campanhas ficaram mais pobres e moralistas, muitas das vezes motivadas pela pressão de grupos religiosos junto aos governos nas 3 esferas do poder (local, estadual, federal). Se não falarmos abertamente sobre sexualidade, práticas sexuais, prazer, uso e abuso de drogas e álcool, não iremos mais longe. Vivemos um momento de despolitização da luta contra a epidemia e de desmobilização da sociedade. Ainda temos muito que avançar em relação aos Direitos Humanos no Brasil e da sua relação com a saúde e a justiça global. Saúde, educação e acesso à informação são direitos de todos e todas. Só que ainda vivemos em uma sociedade excludente, homofóbica, racista e machista. É fundamental perdermos a vergonha de falar sobre Aids o ano inteiro, não somente no carnaval e em dezembro. O argumento de que a Aids se estabilizou não é verdadeiro, o mais provável é que os programas governamentais de Aids estejam em declínio. 
Um poema de João Cabral de Melo Neto mobilizou-me a escrever esse pequeno artigo. Fala poeta! “...Sei que traçar no papel é mais fácil que na vida. Sei que o mundo jamais é a página pura e passiva. O mundo não é uma folha de papel, receptiva: o mundo tem alma autônoma, é de alma inquieta e explosiva. Mas o sol me deu a idéia de um mundo claro algum dia...” . 
Agir faz a diferença. A vida faz diferença. Sexo frágil é sexo sem camisinha.

Ranulfo Cardoso Jr. é médico e professor.

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